17/05/2010

A palavra que nunca foi dita



Há perguntas que nascem com a gente, permeiam nossas existências, colorem ou não nossas vidas e ficam inauditas, inéditas, originais como recém nascidos. Há palavras assim também. E uma, em especial, sapateia em minha alma há alguns milênios. Algo que ninguém nunca disse, algo subsônico, invisível, incólume à maldade dos homens; uma palavra nascida nos primórdios da humanidade e com destino sabido no infinito.


Palavra que exprime algo que ninguém pode (ou soube) sentir antes, que fala de um sentimento a meio caminho entre o nunca e o sempre e bem acima das paixões sabidas. Um segredo reservado pra uns poucos raros, que nem gritos nem sussurros podem liberar.


Uma palavra sem forma, nem idioma, dita apenas pela alma dos puros, sem som algum. Uma palavra que nunca foi dita, porque não pode ser dita, apenas sentida.


Vaguei por décadas nessa e em outras existências, buscando sentido pra dizer a palavra que sabia estar pulsante dentro de mim, mas, sem ouvidos cúmplices pra recebê-la. E, finalmente, com a interferência sábia dos deuses de todos os tempos, deparei-me com a metade que me fazia inteiro. E, então, disse... Fora-me, enfim, confiado o sacro direito de pronunciá-la.


E dois templos se amalgamaram num só, sem tantas perguntas, sem tantas respostas, sem os medos tantos que remetem as pessoas às trincheiras do desamor e tudo que buscamos, a partir dali é, apenas, proclamar que é possível entregar-se, sem fantasias, à certeza de um simples dizer e de um simples ouvir... Ainda que de uma palavra que nunca foi dita.

Anderson Fabiano


Imagem: Google

Um comentário:

Helena disse...

Amor meu...
Há uma palavra que queria inventar agora. Uma que dissesse tempo e espera, caminho e chegada, mistério e revelação. Que tivesse cor e forma, gesto e gosto, textura e som. Que fosse sussurro e grito, sorriso e lágrima, pensamento e voz. Aquela, que também vagou em minha mente por milênios e que agora me parece tão maior, a ponto de não conseguir ser transformada em signos, porque se traduz apenas - e somente - pela emoção. Também não a encontro, mas a sei. Por enquanto, vou chamá-la Amor.
Te beijo, então...