01/03/2011

A dama do galpão



Naquela véspera de aniversário havia uma indisfarçável atmosfera de conspiração no ar. Meus amigos mais fraternos combinaram uma surpresa e no dia e hora marcados, pegaram-me em casa. Encapuzado, fui colocado no banco de trás de um carro e rodaram comigo por um tempo que pareceu interminável.

Sempre com risos debochados, frases provocativas e ameaçadoras, conduziram-me através da entrada de um prédio até um elevador grande e de porta pantográfica. Descemos num andar que, pela ausência de ruídos próximos, me pareceu isolado, mas espaçoso e arejado. Sentaram-me num sofá macio e confortável e retiraram a venda.

No reencontro com a luz, imagens difusas buscaram o foco necessário para o entendimento das coisas. Todos saíram com votos de boa sorte e cúmplices gargalhadas.

Estava num galpão, depósito ou coisa parecida, com janelas enormes de vidro, alguns quebrados. Numa mesinha de canto, de pés altos, ao meu lado, uma balde com champagne Mumm, duas taças de cristal, queijos e cachos de uva Itália.

Buscando o entendimento daquilo tudo, a surpresa maior. Bem diante de mim, sentada numa cadeira comum, uma mulher segurando um violoncelo entre as pernas, corretamente entreabertas. Ela sorriu com imperturbável elegância e aprumou-se para tocar seu instrumento. Enfiada num vestido de seda pérola, de alças que desnudavam seu colo magistral, seus braços firmes terminavam em mãos suaves de unhas bem feitas. Possuía a alvura das musas idealizadas e o talho de sua roupa não deixava dúvidas sobre as medidas helênicas de seu corpo. Suas pernas, bem torneadas, terminavam em pés sublimes, convenientemente adornados por sandálias de salto e tiras douradas.

Como num ato ensaiado e sem trocarmos uma só palavra, aquela bela mulher deixou que seus cabelos louros descessem como uma cortina sobre seu rosto e, em sacro silêncio, pôs-se a interpretar um clássico, que minha reconhecida ignorância do gênero proíbe tentar identificar. Era uma peça que começava com longas notas, entre graves e médios, que me transportavam para uma atmosfera melancólica, mas nem por isso, menos excitante.

Servi um pouco do champagne, cobri de Brie uma torrada, aprumei-me no sofá que reduzia minha altura às dimensões de um menino e passei a curtir aquele momento tão bem produzido por meus leais companheiros.

Isolado do mundo e mergulhado no insólito da situação, pude deter-me nos múltiplos detalhes da violoncelista que, absorta, capturava no seu imaginário as notas precisas que reproduziam aquele clássico. O andamento da música iniciava numa série de compassos acelerados, acompanhados pelos movimentos da intérprete.

As primeiras gotas de suor surgem em sua fronte. A concentração é absoluta. O volume das notas sobe de intensidade. Os movimentos são cada vez mais vigorosos. Reaprumo o corpo na poltrona e vejo o exato instante em que a alça direita de seu vestido escapa de sobre os ombros e revela seu seio bem formado, branco, teso, de bico róseo, desafiador, rijo. Como se não fora com ela, continua tocando sua música, entregue aos delírios daquela obra. Seu seio desnudo é pressionado, ritmicamente, contra o braço do instrumento exibindo toda sua beleza. Sinto algo se movimentando dentro de mim e sirvo mais um pouco de champagne, tentando parecer natural. Um frenesi de sons, alucinadamente extraídos daquele instrumento, nos envolve. Sua respiração ofegante, suas narinas dilatadas e o suor que, já não tão discreto, colore seu rosto, denunciam a inevitável excitação daquela mulher. Eu já não encontro posição para acomodar o volume que se formou em minha calça e que pulsa, descontrolado. Ao ritmo cada vez mais acelerado, a musa se debate em êxtase. De repente, uma última nota é executada e é deixada flutuando no ar.

Exausta, a violoncelista deixa cair o instrumento e, pela primeira vez, me olha nos olhos. Levanta-se, caminha em minha direção e, sempre sorrindo, ajoelha-se diante de mim e beija, demoradamente, o volume pulsante sob minha calça. Sinto seu suave perfume, levanto seu rosto e beijo sua boca, de lábios sedentos e carnudos. Nossas respirações misturam-se num mar de carícias silenciosas. Num gesto doce e lento, ela enfia dois dedos sob a alça que restara no lugar e a empurra, preguiçosamente, para o lado, até que o vestido deslize pelo braço e fique suspenso no bico do seu seio esquerdo. Duas taças sagradas me são apresentadas. Gotículas de suor transgridem os poros e dão um gosto agridoce aos beijos e lambidas que, inadiáveis, lanço em cada um de seus seios. Primeiro gemidos. Meus e dela. E, sem que me dê conta, dado o torpor dos sentidos, percebo minha intimidade vasculhada por mãos hábeis e macias. Seu rosto some por entre minhas pernas, protegido por aquele manto dourado e o calor de seu hálito identifica onde estava e o que fazia sua boca. Sinto-me envolvido por aquele veludo úmido e quente que brinca deliciada com aquela parte de mim. Impotente de reações e prazeroso, me limito a acariciar seus cabelos finos.

Após um tanto de tempo, satisfeita, aquela divina dádiva levanta-se e diante de meu olhar atônito, provoca discretos movimentos laterais que fazem seu vestido despencar pelos quadris, como um colar de pérolas partido. E ali, diante de mim, surge uma deusa nua, sobre os saltos de fetiche e com um sorriso sutilmente lascivo, preparando-se, sem cerimônias, para sentar sobre meu corpo e completar sua obra.

Senti uma parcela de mim invadir aquela caverna almiscarada, úmida e quente, quase que no mesmo ritmo alucinado dos seus acordes. Fui literalmente engolido por aquela misteriosa mulher. Lembro-me que liberei um forte gemido de prazer, no que fui acompanhado por ela.

A suave violoncelista, num crescendo de movimentos semelhantes ao de sua música, transformou-se, passo a passo, numa felina faminta que, após um tempo que não saberia precisar, levou-me um gozo intenso e nirvânico.

Com os batimentos descompassados, sem controle sobre os sentidos, embriagado de tesão e champagne, abracei-a fortemente e liberei um longo urro que, ricocheteando nas paredes daquele galpão, seguiu sua última nota, e como num mágico dueto, ficou flutuando no ar.


Anderson Fabiano


Imagem: Google

8 comentários:

Desnuda disse...

Olá Poeta!

Primeiro agradeço a lembrança e presença no meu blog e o comentário. Este seu blog ainda não conhecia ( outro, sim). Gostei do conto que é verdadeiramente um sonho!


Beijos e bom fim de semana, Fabiano.

´Flor* disse...

Magistral Fabiano..um conto excitante,levando-me pelas asas da imaginação.Sensual..descrevendo um excitante colóquio em nome do Amor.Gostei.Bjus\Flor***Que bom que estás voltando para nosso mundo das letras..que é feito de Amor*Sucesso

Allan Robert P. J. disse...

Quem dera um dia eu escrevesse assim! As imagens continuam a dançar na minha mente. Gostei. Vou voltar para ler mais.
:)

Helena disse...

Intenso sem perder a doçura, sensualíssimo sem perder o romance.
Sempre disse que a melhor definição para o erotismo é compará-lo a uma janela entreaberta. Nem tão escancarada que se possa ver tudo, nem tão fechada que não se consiga ver nada...
Assim são teus textos. Eróticos na medida certa, envolventes e instigantes. Uma janela deliciosamente entreaberta, que permite a fantasia "espiar" e ir muito além, dando continuidade a cada cena...

Verdadeiramente lindo!

Te beijo, beijo!

Anne Lieri disse...

Anderson,um conto sensual e fantástico!Final sempre surpreendente em seus textos!Adoro seus blogs e indiquei mesmo sem selinho porque todo mundo tem que conhecer seus textos sempre com tanto talento!Fico feliz que gostou!Bjs,

olhar disse...

Anderson!

Gostei demais de seus três blogs!Muito bom mesmo!
Obrigada pela sua visita lé em meu OLHAR, e volte sempre! Mas só vale, se OLHAR DENTRO DOS OLHOS !!!

beijos!

Bia

Fátima disse...

Obrigada pela visita na Maraláxia.
Gostei muito de seus escritos.
Parabéns!
Com carinho
Fátima

Jorge Sader Filho disse...

Sabe, Anderson, seu mal é postar pouco.
Fico a imaginar toda a cena descrita. Sensual, poética, bem descrita e muito pura.
Excelente! Brinde-nos mais com textos assim, de qualidade.

Abraço,
Jorge